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Cristianismo a La Carte, ao Gosto do Freguês

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A expressão francesa “à la carte”, que refere-se à possibilidade, no cardápio, de se escolher livremente o que quiser entre os vários pratos oferecidos por um restaurante, não se aplica somente ao ramo gastronômico. Essa expressão também pode ser empregada, e com muita justiça, ao ramo eclesiológico.

Nossa sociedade pós-moderna, repleta de relativismos e de valores utilitaristas, tem contribuído, e muito, para o surgimento e manutenção desse tipo de cristianismo. Aliás, esse “cristianismo à la carte”, ao gosto do freguês, pode ser verificado em várias esferas do nosso cotidiano, conforme podemos ver a seguir:

Na Esfera do Consumismo Cristão

No que diz respeito à esfera mercadológica, os “serviços à la carte” podem ser vistos basicamente em dois setores, no setor literário e no setor musical, para mencionar apenas estes dois.

No setor literário, além da enorme quantidade de livros “evangélicos” que temos à nossa disposição, chama a atenção também um grande universo de Bíblias à La Carte. Estamos experimentando hoje uma “overdose de versões bíblicas”. Os bibliófilos de plantão têm hoje à sua disposição todos os tipos de Bíblias, das mais simples até as mais inusitadas, tais como, a “Bíblia de Estudo Batalha Espiritual e Vitória Financeira”, bem como, a “Bíblia do Adorador”, a “Bíblia do Surfista”, a “Bíblia do Executivo” e, até mesmo, a recém-publicada “Bíblia da Vovó”, que permite que a vovó coloque no verso da capa de tal Bíblia a foto do seu netinho querido!

Já no setor musical também se verifica a existência de um Mundo Musical Gospel à La Carte disponível, o que pode ser traduzido em termos de uma verdadeira “explosão na produção da nossa hinologia evangélica”. Todavia, uma vez que “tamanho não é documento”, deve-se ver com grandes reservas este crescimento cada vez maior da “música gospel” em nosso contexto brasileiro, pois, muitas vezes, as letras dessas músicas produzidas em larga escala estão repletas de conceitos e pensamentos bíblica e teologicamente estranhos ao verdadeiro cristianismo, e, inclusive, estão saturadas de idéias utilitaristas, humanistas, sincréticas, e, até mesmo, oriundas da teologia da prosperidade. Não nos enganemos: quantidade não significa necessariamente qualidade!

Na Esfera do Culto Cristão

Na esfera do culto cristão, o “cristianismo à la carte” também pode ser percebido com exagerada e triste freqüência. Digo “triste”, porque a “diversidade de opções cúlticas” disponível não significa necessariamente que estas opções sejam “boas”. Isto deve nos servir de alerta.

Em nossos dias, temos observado a crescente proliferação de igrejas de uma forma sem precedentes. A ordenança feita ao homem: “crescei e multiplicai-vos”, além do seu sentido voltado para a “reprodução da espécie humana”, tem sido obedecida à risca no âmbito do significado eclesial.  Hoje, o fiel pode contar com Igrejas à La Carte. Há igrejas de todos os tipos e para todos os gostos: igrejas ortodoxas, liberais e neoliberais; igrejas tradicionais, pentecostais e neopentecostais; igrejas “com usos e costumes” e igrejas “sem usos e costumes”; igrejas “judaicizadas” e igrejas mais convencionais; igrejas cuja ênfase é missionária e evangelística e outras cuja ênfase é voltada para o ensino; igrejas altamente dotadas de recursos tecnológicos (com notebook, data-show, canhões de luz, mesa de som de última geração etc) e igrejas onde tudo funciona de forma, digamos, mais “artesanal”. Com tantas opções diante dos olhos, o cristão se pergunta: qual delas devo escolher para congregar?

Além disso, junto com esta enorme variedade eclesial existente, o fiel também encontra à mão várias Liturgias à La Carte. Há igrejas em cujos cultos permite-se que os homens sentem-se ao lado das mulheres e outras onde ambos devem se assentar separados. Há cultos onde “é de praxe” bater palmas e outros nos quais as palmas são terminantemente proibidas. Há cultos onde o silêncio é gritante e cultos nos quais o barulho é vazio de significado. Há cultos em que as manifestações espirituais ocorrem a granel e outros nos quais nem tanto. Há cultos nos quais a hinologia utilizada é a tradicional da denominação e outros nos quais os “corinhos” avulsos predominam.

Como se isso ainda não bastasse, há ainda as Pregações e Ensinos à la Carte. Há pregadores que “pegam pesado” com o fiel durante a mensagem e há aqueles que “pegam leve até demais”. Há pregadores que gritam e não dizem nada e há aqueles que falam mansamente, mas dizem tudo. Há pregadores que pregam durante uma hora e cuja mensagem parece que durou “uma eternidade” e há aqueles que falam durante apenas vinte minutos, mas cuja mensagem ecoa para sempre. Há aqueles que ensinam que se a vida do fiel “está de mal a pior” é porque ele está em pecado ou não está dando o dízimo corretamente e há também aqueles que dizem exatamente o que o fiel quer ouvir. Aqui, o “cliente” (ou melhor, o “crente”) tem sempre razão!

Na Esfera da Vida Cristã

Ora, tais múltiplas facetas deste “cristianismo à la carte” conduzem muitas vezes o fiel a uma Conversão à La Carte e também a um Arrependimento à La Carte, isto é, ao seu bel prazer.

Há muitas pessoas dentro de nossas igrejas que pensam que não há nada de errado em: falar um palavrãozinho de vez em quando, contar piadas sujas, olhar cobiçosamente para outra mulher, sonegar o imposto de renda, contar pequenas mentirinhas, enganar o patrão, alimentar pensamentos pecaminosos de todos os tipos, e assim por diante, para citar apenas alguns poucos exemplos. Tais pessoas relativizam o significado do pecado, ao mesmo tempo em que legitimam as suas práticas pessoais e individuais como sendo corretas. Em outras palavras, a repetição constante de certas práticas reprovadas acaba conferindo-lhes certo ar de normalidade e naturalidade.

Aonde Quero Chegar?

Em vista de tudo o que foi dito até aqui, o leitor (a) pode estar se perguntando: afinal de contas, aonde você quer chegar?

Bem, embora eu entenda, por um lado, que esta grande variedade de opções literárias, musicais, eclesiais e litúrgicas seja benéfica, pois ela acaba alcançando a cada setor da sociedade, tendo, aliás, um efeito inclusivo sobre aquelas partes da sociedade que partilham elementos e afinidades em comum. Por outro lado, temo que toda esta diversidade de “elementos gospel” exista em benefício de alguns poucos, e, ao mesmo tempo, em detrimento de muitos. Acredito que toda essa “personalização”, “particularização” e confecção feita “sob medida”, também pode ser perigosa, porque tende a dar uma visão “fragmentada” e “diluída” daquilo que deveria ser visto em seu conjunto e escopo mais amplos e não de forma reducionista.

O meu receio é que toda esta ideologia do “feito sob medida” possa vir de alguma forma a sacrificar o “todo” pela “parte” e o “conteúdo” pela “forma”. Temo que esse “cristianismo à la carte” (muitas vezes, com feições capitalistas),  ainda que inconscientemente, possa desfigurar a face do verdadeiro cristianismo (se é que isso já não esteja acontecendo!), de modo a favorecer aquele que “gritar mais alto”, a fim de que este possa levar um “evangelho” mais “açucarado”, “barato” e “digerível”, isento de responsabilidades e compromissos. Ou seja, um “evangelho light”.

Na vida cristã temos que entender que, apesar do nosso livre-arbítrio, não estamos autorizados a escolher “engolir” apenas os “pratos” de que mais gostamos. Aliás, como uma criança que “torce o nariz” diante de certos alimentos, mas que, por fim, acaba comendo-os, pois descobre que lhe são necessários, temos também que aceitar a vontade de Deus em Sua totalidade, tal como expressa em Sua Palavra. Enfim, que o “cristianismo à la carte” possa dar lugar ao “Cristianismo Segundo Cristo”.