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Crente pode dar beijo ou não?

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Gospel o melhor da WEB Crente pode dar beijo ou não? Reflexão Gospel

Recentemente, ao publicar um artigo aqui no APENAS fui questionado por uma querida irmã em Cristo, que, de uma forma muito carinhosa, disse não compreender como um “homem de Deus” como eu me despedia das irmãs nos meus comentários feitos aqui no blog mandando beijos (o que é verdade, muitas vezes me despeço com “um beijo”, ou “um beijo, no amor do Senhor”, ou “um beijo, no amor dAquele que nos une” e outras formas carinhosas de demonstrar afeto por meio de beijos. Escreveu essa irmã (e faço questão de mantê-la anônima, pois expô-la de modo algum é relevante aqui) no espaço de comentários de um de meus posts: “Seus posts são sempre uma benção irmão! que bom que vc se baseia no evangelho da verdade. Só acho estranho vc mandar abraço para os homens e beijos para as mulheres, homem de Deus de respeito não fica mandando beijos,por mais que não seja malícia sua, mas para evitar a aparência do mal, entende?“

Confesso que em principio o comentário me chocou de tão surreal que soou. Afinal, pela lógica do comentário, se eu mando um beijo para qualquer pessoa do sexo oposto isso faz com que eu não seja um “homem de Deus” e muito menos “de respeito”. Fiz então o que um cristão deve fazer: fui às Escrituras, mais especificamente a 1Samuel 9.6, onde Saul diz sobre Samuel: “Nesta cidade mora um homem de Deus que é muito respeitado. Tudo o que ele diz acontece. Vamos falar com ele. Talvez ele nos aponte o caminho a seguir”.

Ou seja, por essa definição bíblica, o homem de Deus é alguém que tem intimidade com o Senhor, ao ponto de chegar a ser capaz de apontar caminhos de acordo com a Palavra do Senhor – e as suas ações, fruto dessa intimidade, lhe garantem respeito. Poderíamos inferir, então, que o “homem de Deus” é aquele que manifesta em sua vida aquilo que todo cristão que tem intimidade com o Criador manifesta: o fruto do Espírito de Gl 5.22,23: “Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio”. Então, pela lógica do comentário feito no blog pela querida irmã, não importa se eu tenho intimidade com Deus, não importa se eu transmito amor ou alegria, se minha vida traz paz ao meu semelhante, se demonstro paciência nos momentos em que quero esganar alguém, se sou fiel, manso, se domino minha natureza carnal em momentos em que quero explodir…. nada disso importa! Porque, afinal, o fato de eu me despedir das irmãs com “um beijo” anularia tudo isso.

Mas, depois de pensar um pouco e lembrar que existe uma ala da igreja evangélica brasileira que segue uma linha mais ascética, procurei compreender o comentário com toda graça que minha pecaminhosidade me permite. Respondi a ela com bastante deferência como eu entendia essa questão, que a meu ver era algo cultural, e me despedi respeitosamente, dizendo “Mas se de algum modo isso escandaliza a irmã não se preocupe, pois me despedirei de si com todo o respeito e de acordo com a cultura da sua igreja local: a paz do Senhor e um aperto de mão bastante respeitoso. Jesus a abençoe!“. Recebi uma tréplica carregada de ironia: “tá bom entendi irmão, então agora comece a mandar beijos para os homens também, afinal é com todo o respeito e como se fosse da família né!” . (sic)

Ironia santa?

Procurei ignorar o sarcasmo e me concentrei na razão apresentada para eu não poder me despedir das irmãs com um beijo: “Evitar a aparência do mal”. Ah! A aparência do mal de 1 Ts 5.22, que já fez, por exemplo, com que milhares de cristãos respeitáveis fossem execrados em suas comunidades de fé por serem acusados injustamente de terem cometido pecados que nunca cometeram porque “alguém viu algo” que lhe pareceu “o mal”. Como o exemplo clássico do irmão que está tomando guaraná e alguém acha que é cerveja – e lá vai o pobre do irmão para a disciplina.

Esse episódio me fez refletir. Em especial, sobre aquilo que inicialmente pensei em chamar de “bobajada gospel”, mas que depois, para tentar não ofender ninguém e tentar parecer mais intelectual, chamei de “ricochetes gospel”: invenções nonsense que criamos e que simplesmente desviam o olhar da Igreja de Jesus Cristo daquilo que realmente deveria chamar sua atenção – do mesmo modo que uma bala de revólver que, atirada rumo a um alvo, ricocheteia e vai parar num lugar onde nunca deveria ter chegado.

Há inúmeros exemplos:

Existem milhares e milhares de pessoas ingênuas participando de campanhas de prosperidade antibiblicas pelo pais afora e fazendo tudo o que a Biblia não promete para ver se consegue ser abençoado com “unções financeiras” - e, no entanto, a “aparência do mal” é um cristão se despedir com todo respeito e carinho fraternal de uma irmã com um beijo.

Pastores traem seu chamado pastoral ao se candidatar a cargos eletivos e formam bancadas “evangélicas” no governo cuja atitude é tudo menos cristã - e, no entanto, a “aparência do mal” é um cristão se despedir com todo respeito e carinho fraternal de uma irmã com um beijo.

Pastores se ofendem mutuamente pela mídia chamando-se de termos chulos - e, no entanto, a “aparência do mal” é um cristão se despedir com todo respeito e carinho fraternal de uma irmã com um beijo.

Lideres levam suas ovelhas a acreditar que Deus não está no controle de tudo com teologias apócrifas - e, no entanto, a “aparência do mal” é um cristão se despedir com todo respeito e carinho fraternal de uma irmã com um beijo.

Pastores ambiciosos atraem membros de outras igrejas para as suas usando como isca shows dos grupos de rock gospel da moda - e, no entanto, a “aparência do mal” é um cristão se despedir com todo respeito e carinho fraternal de uma irmã com um beijo.

Cristãos dirigem no trânsito acima da velocidade permitida, fazem bandalhas, avançam o sinal (muitos com o adesivo “Jesus é meu copiloto” colado no vidro) - e, no entanto, a “aparência do mal” é um cristão se despedir com todo respeito e carinho fraternal de uma irmã com um beijo.

Músicos gospel cobram fortunas para se apresentar em igrejas e “louvar a Deus” (que é fazer aquele showzinho tradicional de duas ou três músicas num culto ou num congresso) - e, no entanto, a “aparência do mal” é um cristão se despedir com todo respeito e carinho fraternal de uma irmã com um beijo.

Palestrantes gospel condicionam suas idas a igrejas ao pagamento de valores altíssimos (e tem que ser em dinheiro, cheque nem pensar pois, afinal, pode não ter fundos) e hospedagem em hotéis de luxo - e, no entanto, a “aparência do mal” é um cristão se despedir com todo respeito e carinho fraternal de uma irmã com um beijo.

Igrejas atraem membros com promessas mentirosas de cura que não vão acontecer, baseadas em filosofias de origem da Nova Era, como a Confissão Positiva - e, no entanto, a “aparência do mal” é um cristão se despedir com todo respeito e carinho fraternal de uma irmã com um beijo.

Irmãos se maltratam, se ofendem, se agridem, se boicotam pelas costas nos corredores das igrejas - e, no entanto, a “aparência do mal” é um cristão se despedir com todo respeito e carinho fraternal de uma irmã com um beijo.

Pastores vão a programas de auditório na TV e usam de uma agressividade inacreditável para defender suas visões bíblicas - e, no entanto, a “aparência do mal” é um cristão se despedir com todo respeito e carinho fraternal de uma irmã com um beijo.

E por aí vai.

Haveria muitos, mas muitos outros exemplos, de problemas graves, sérios, que precisam de fato ser combatidos no nosso meio, mas não pretendo gastar mais tempo aqui com isso. Fato é que enquanto a Igreja ficar “ricocheteando” suas atenções daquilo que de fato importa para irrelevâncias como o fato de um homem de Deus se despedir num blog de uma irmã desejando-lhe “um beijo”, só estaremos fazendo uma coisa: perdendo tempo, energias e desviando o foco da real proclamação do Evangelho e daquilo que ele propõe.

Está na hora de esquecermos as meras expressões culturais. Temos de olhar para o pecado de fato. Para a falta de compromisso com aquilo que verdadeiramente importa na Bíblia. Pastores e membros que gastam tempo e saliva criticando outros porque “mandam beijos” em vez de desejar um insoso e geralmente irrefletido “apadosinhô” ao se cumprimentar deveriam voltar às Escrituras e reler o Sermão do Monte, as pregações de Jesus e outras passagens que ensinam o que é de fato viver como um “homem de Deus”.

A propósito, só uma informação: quatro versículos após a Bíblia dizer, em 1 Ts 5.22, que devemos nos abster da aparência do mal, o apóstolo Paulo diz o seguinte: “Saudai a todos os irmãos com ósculo santo” (1 Ts 5.26). “Ósculo”, para quem não conhece o termo, significa “beijo”. E se você for no original grego em que foi escrito o texto vai descobrir que os “irmãos” aqui mencionados (do grego adelfos) refere-se no contexto a irmãos no âmbito espiritual (homens ou mulheres) , como ocorre mais de 30 vezes em Atos e mais de 130 vezes nas cartas paulinas (se tiver interesse de conferir um estudo sobre isso, em inglês, clique aqui).

Ou seja, a despeito de qualquer outra coisa, o apóstolo Paulo nos autoriza a nos despedirmos de nossos irmãos espirituais em Cristo (homens e mulheres) com… um beijo. E tenho certeza que Paulo era um “homem de Deus que se dava ao respeito”.

Paz a todos vocês que estão em Cristo. E um enorme beijo a todos os irmãos e a todas as irmãs, no amor dAquele que nos une.

Autor: Mauricio Zágari
Fonte: http://apenas1.wordpress.com